01 abril 2025

Adolescência

No dia 13 de março a Netflix lançou um minissérie de 4 episódios chamada Adolescência, que conta sobre Jamie Miller, um estudante de 13 anos, que é preso sob acusação de assassinar uma colega de classe.

O foco desse texto não é ser uma review, apesar de conter opiniões pessoais minhas. Eu quero, principalmente, expressar a minha indignação quanto à recepção de algumas pessoas à minissérie.

Eu gosto de consumir mídias com tema criminal, mas não foi esse o motivo que me fez ir assistir Adolescência.

Eu vi no Twitter uma pessoa comentando como está cada vez mais comum encontrar jovens como o Jamie na vida real. Nas replies, tinha pessoas elogiando a atuação do Owen Cooper (ele faz o Jamie) e citando o terceiro episódio, que é focado no encontro do Jamie com uma psicóloga.

Pra ser sincera, eu tenho muito interesse pela parte psicológica que envolve um crime, então me chama muito a atenção quando esse tipo de conversa acusado-psicólogo é mostrado.

Abri a Netflix e comecei a assistir.

No primeiro episódio, eu tava assistindo como uma série de crime qualquer, que o papel do telespectador é acompanhar a investigação e o desfecho dela. A gente tenta adivinhar o que aconteceu, se o acusado realmente é culpado, o motivo do crime. Depois, vemos a investigação chegar ao fim e essas perguntas serem respondidas. Mas esse não é o caso de Adolescência, e muita gente não entendeu isso.

Na minha opinião, do segundo episódio em diante, é explícito que o objetivo da série não é ser uma série investigativa. Claro, aconteceu um crime e a gente quer saber se realmente foi o Jamie e, se sim, por que ele fez isso. Mas, muito acima disso, a série fala sobre o crescimento da misoginia nas gerações mais novas, sobre a falta de respeito que eles têm por figuras de autoridade, sobre como tem um porrada de coisa acontecendo na vida dos adolescentes que os adultos nem fazem ideia.

E eu nem estou sendo aquele tipo de pessoa que inventa significados e críticas só pra dar uma profundidade e importância que não existe. Adolescência é uma crítica. E não sou só eu que estou falando isso.

Mas as pessoas ficaram chateadas porque a série “não mostrou” o desfecho da investigação.

Eu me pergunto: A série falhou em comunicar o seu objetivo ou as pessoas não sabem mais interpretar sem que algo seja diretamente explicado a elas?

A produção optou pelo plano sequência, que é quando uma cena inteira é filmada sem cortes. E eu entendo que, às vezes, pode ser overwhelming, ou, dependendo da cena, meio tedioso. Mas, acredito de verdade que, pra essa minissérie, essa escolha foi perfeita. Por isso, não admito ver pessoas falando sobre como o terceiro e quarto episódio foram “boring” ou “sobre nada”.

A conversa entre o Jamie e a psicóloga Briony no terceiro episódio é de tirar o fôlego de tão intensa. A atuação do Owen Cooper e da Erin Doherty é absurda. São 52 min de cena sem corte que quando termina, você só consegue pausar os créditos e olhar pro teto em completo silêncio.

No meu caso, foi o que aconteceu: Fiquei olhando pro teto em silêncio. Aí depois eu chorei. Muito. Até agora não sei explicar direito de onde veio essa reação, mas acho que, como mulher, entendi perfeitamente a posição da psicóloga em relação aos homens que aparecem no episódio, incluindo o Jamie, que “tem apenas 13 anos”.

Ser mulher é difícil pra caralho e quando terminei o episódio, pensei: “Era difícil, continua sendo e, aparentemente, sempre vai ser”. Isso me deu uma tristeza muito grande.

Eu tenho só 24 anos, mas depois da série me peguei pensando: “Se eu tiver um filho, ele pode acabar assim. Se eu tiver uma filha, ela pode acabar morta pelo filho de outra pessoa”. Foi como se pegassem a realidade e esfregassem na minha cara, sabe? Caiu a minha ficha e doeu bastante.

O último episódio encerra a história mostrando do ponto de vista dos pais do Jamie. Não, não vai ter o Jamie no tribunal. Não, não vai ter o Jamie indo pra cadeia. A série não é pra isso. Ela faz uma crítica e pra bom entendedor, meia palavra basta. Então, não precisava de mais episódios e não precisa de uma segunda temporada.

O objetivo de Adolescência não é fazer você terminar a sua maratona com uma sensação de que “a justiça foi feita”. O fim é amargo e a gente não pode fazer nada sobre isso.

Eu só espero que essa impotência não se aplique à vida real também.

Esse post faz parte do BEWA 2025.